quinta-feira, 12 de junho de 2014

Comer o Caráter de Deus

Queria compartilhar uma das lições mais úteis e de resultados mais concretos que aprendi no meu relacionamento com Deus esses anos. Considero como revolucionária, apesar de simples e bem conhecida, mas não devidamente compreendida nem aplicada. É revolucionária, não porque o diga, mas o digo por ser revolucionária. Bem...

É bastante comum, ouvirmos em orações ou até sermões, mesmo de amigos muito próximos, o pedido ou a ênfase na importância de se "sentir a presença de Deus". E eu queria dizer-lhe o quanto esse pedido, ou o quanto basear seu relacionamento com Deus nesse quesito, é perigoso e danoso. Se você for cristão, pode lhe parecer herético ensinar a alguém a não confiar no senso da presença de Deus, mas tenha calma, vou explicar.

Acontece que converso com amigos que estão cansados e ansiosos, ou se sentem frustrados na vida cristã, porque lhes parece que Deus não ouve suas orações, ou se vêem distantes dEle. A alegação mais comum é esta: "Não consigo sentir a presença de Deus". E por não sentir, a ideia de um Deus distante, magoado, ou frio parece-lhe a mais óbvia e certa. Mas isso é um erro. Satanás torce por isso, e ensina-o com maestria às pessoas, e porque não dizer, com deleite também.



Não me recordo, em todas as escrituras, de uma só passagem em que nos seja aconselhado a sentir coisa alguma sobre nossa relação com Deus (se você conhecer uma, por favor, me mostre). Há pelo contrário, uma quantidade infinda de conselhos sobre o perigo de confiar nos próprios sentimentos. Jeremias nos deu a clássica advertência: "Enganoso é o coração". "Enganoso", ele disse. Trapaceiro, mentiroso, salafrário, é o coração. Para você, o seu principalmente.

Pense em João Batista minutos antes de ser decapitado, os discípulos quando foram perseguidos e mortos à fogueira, ou Jesus antes de ser crucificado. Não os vejo animados ou alegres por "sentirem a presença de Deus". Muito pelo contrário, os vejo cansados, emocionalmente feridos e muitas vezes tristes. Na Cruz, Jesus bradou que não sentia mais a presença de Deus. Ele se sentiu abandonado. Mas sentimentos não abalaram em absolutamente nada sua confiança no Pai. E nessa confiança eles foram até o fim, até a morte por Ele. Sua relação com Deus baseava-se portanto, em algo superior, algo elevado, algo substancialmente mais confiável do que os sentimentos traiçoeiros da natureza humana, a qual damos tanto ouvidos e tanto nos frustramos.

E agora, eu queria que você tivesse uma noção melhor do quanto esse princípio é importante, e pode revolucionar seu relacionamento com Deus. O que no fundo estou tentando dizer, é que você deve basear sua percepção de Deus, no conhecimento do caráter de Deus, e não nos próprios sentimentos. Na verdade, se você baseia sua relação com Deus no que sente, então você se relaciona apenas consigo mesmo, e tem de lidar sozinho com seus medos, frustrações e percepções errôneas da vida. Outra coisa grave que preciso dizer, é que isso é idolatria. Sim. Você se torna ídolo de si mesmo, porque os sentimentos são seus, e o deus imaginário a quem você serve e confia, é uma miragem abstrata, imagem forjada como reflexo de algum espelho fosco de si próprio. No fundo, você pensa que confia em Deus, mas está enganado. Confia apenas nos seus sentimentos a respeito de Deus, não nEle. "Seus sentimentos". Você, confiando no que sente. Não é muito diferente do fariseu que "posto em pé, orava de si para si mesmo" (Lucas 18:11).

Muitas vezes, Deus me fez não apenas não sentir Sua presença, como permitiu-me sentir sozinho e aparentemente abandonado. Tive que aprender a descansar na confiança de quem Deus é por Ele mesmo, independente do que eu pense ou sinta sobre Ele. Sei que é maravilhoso sentir a presença de Deus, quisera que todos os meus conhecidos desfrutassem dEle. De bom grado, muitos deixariam seus vícios por momentos de oração. Mas quero aqui, enfatizar o perigo e os danos de fazer da sua própria percepção, um parâmetro no seu relacionamento com Deus. Ele não nos ensinou isso em lugar algum. 

No entanto, se você basear seu relacionamento com Deus no caráter que Deus tem, por Ele mesmo, independente de você, desfrutará de uma paz maravilhosa. Afinal, por mais complexas e diferentes que se tornem as circunstâncias, Ele não muda, porque o caráter de Deus é assim, imutável. É sempre o mesmo, e sua confiança portanto, não pode ser abalada com facilidade. Isso traz descanso.
Perceba o quanto as pessoas que baseiam sua relação com Deus no sentir a presença dEle sofrem. "Hoje estou triste", "hoje estou frustrado", "hoje estou cansado", "hoje estou com medo". É óbvio que você sentirá dificuldades em sentir a presença de Deus nesses dias. Mas e daí?! Independente do que você sinta ou deixe de sentir, Deus é Deus. Ele não precisa dos seu sentimentos ou percepções para existir. E continuará sendo mesmo jeito que sempre foi a eternidade inteira, quer você sinta, quer deixe de sentir alguma coisa.

A confiança no caráter de Deus muda o jogo. Muda sua disposição para enfrentar a adversidade. Muda você, muda tudo! Na verdade, confiança é depender de outro, e como é emocionalmente cansativo depender de alguém tão volúvel como si mesmo. Se quiser confiar em sentimentos, confie nos sentimentos de Deus, e não nos seus.

Descanso é saber que "estou desse jeito agora, mas Deus continua como sempre foi, mesmo antes dessa tal situação acontecer". "Porque eu, o Senhor, não mudo; por isso vocês [...] não são consumidos". (Malaquias 3:6). "Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente". (Hebreus 13:8). "No sossego e na confiança está a sua força" (Isaías 30:15).

Agora que expliquei o recheio da coisa toda, queria te falar sobre porque não confiamos no caráter de Deus, e preferimos confiar nos próprios sentimentos, endeusando a nós mesmos.

A afirmação que faço é categórica, repetitiva e real: Nós desprezamos a Bíblia. Não confiamos em Deus, porque não O conhecemos, e não O conhecemos porque fazemos pouco caso do que Ele disse de si mesmo. O único lugar no mundo onde se pode conhecer o caráter de Deus como Ele a si próprio se revela é em sua Palavra, mas fazemos dela enfeite para exibir o Salmo 23 na sala de estar. Nem só de pão vive o homem, disse Jesus. E contudo, nossa alma morre de inanição. Na verdade, ler a Bíblia, é como comer o caráter de Deus. É nutrir a mente com as vitaminas da sua personalidade. É fazer parte de Deus, ter simbiose com o Criador.

Como disse um antigo pregador a quem muito estimo: "A Bíblia fala no tom de voz do próprio Deus." C. H. Spurgeon. E que voz maravilhosa Ele tem!

"Que o Senhor nos perdoe o desprezo que temos dado a Sua Palavra." Ellen G. White.

domingo, 11 de maio de 2014

Faça Valer a Pena


Eu me lembro. Não consigo esquecer. Nunca consegui. Era uma quinta-feira quente e mais escura que o normal. Eles invadiram meu barraco. As luzes do farol da viatura machucavam meus olhos, rodavam em azul e vermelho iluminando a imundícia de onde vivi. Jogaram tudo ao chão e quebraram meu lixo. Era lixo, mas era meu, e era tudo o que tinha. Quarenta dias depois, estávamos no tribunal, minha culpa e eu.

Confesso que não tinha coragem de levantar a cabeça. A vergonha era um chapéu de chumbo, pesado demais para mantê-la erguida por muito tempo. Não ouvi uma palavra dos advogados, mas recordo-me bem da voz do juiz: "culpado"! "Culpado", ele disse. Culpado, e ele tinha razão. Condenado à estaca, eu devia ser apedrejado vivo antes de ser pendurado. Não retruquei, não xinguei ninguém, não amaldiçoei, não disse nada. Eu sabia que era culpado e não tentei provar uma inocência que não possuía.



A execução era sumária, portanto, o meirinho segurou-me pelo braço, já fixamente preso pelas correntes. Me deu dois empurrões, e como uma mula de carga, eu entendi o recado. Enquanto caminhava rumo à morte certa, o tilintar das correntes zumbiam como pano de fundo para minha mente cheia. Cheia de nada. Eu vagava entre este mundo e o meu. Não vou dizer que não tive medo. Minha alma estava aterrorizada, mas não conseguia esboçar reação. A certeza da culpa me fazia pensar em justiça, e isso parecia ser uma coisa boa afinal. Aceitei minha condenação, mas nem disso me orgulho.

Com aquele jeito meio pinguim de andar, afinal as correntes aos pés atrapalhavam meus passos, vi outros passos. Passos de um homem alto em minha direção. Já o havia notado entre os que assistiram meu julgamento, mas meu chapéu de culpa me fez desviar dele o olhar, e voltava a olhar para dentro de mim: eu via culpa.

Agora consegui ver seu rosto, e por um instante esqueci-me do tribunal, esqueci-me das algemas, esqueci-me das correntes, esqueci-me até da justa condenação. Quando tentei olhar nos seus olhos (me senti movido a isso), não consegui por mais de um quarto de segundo. Tive vergonha. Ele me parecia diferente, e também familiar. Tentei contemplar aquele homem estranho mais uma vez, e foi quando caí.

Caí de susto quando vi meu próprio rosto no rosto dele. Há poucos instantes era um homem, e agora aquele outro homem era igual a mim. Ele tinha o meu rosto. Não entendi nada a princípio. Minha mente ficou tão confusa que não conseguia me levantar. Coração acelerado, eu respirava como uma locomotiva. Tentei encher os pulmões três vezes, mas o ar não entrava. Aquele homem se abaixou, olhou diretamente nos meus olhos e eu não conseguia acreditar. Era meu rosto que estava no rosto dele! Me arrastei velozmente jogando braços e pernas, recuando de medo por não entender que mágica assombrosa era aquela. Eu suava, minha barriga embrulhou na mesma hora e meu peito ficou frio.

- Quem é você?! O que é isso?!

Foi então quando ele falou. Meu coração acelerado, harmonizou quando o ouvi. "Calma. Estou aqui para ajudá-lo", ele disse. Não entendia como as pessoas ao meu redor pareciam manequins de cera. Nem piscavam. Até hoje não sei o que houve naquela entrada de corredor. Mas suspeito que aquele homem fez parar o tempo.

Ele me pediu o macacão de condenado, e o vestiu por cima das suas próprias roupas. Ninguém diria que aquele homem não era eu. Eu mesmo comecei a duvidar de quem eu era, de tão idêntico ele era a mim.

Ele me estendeu a mão, e quando levantei, o volume da multidão abriu, e o tempo voltou a passar. Ouvia agora as palavras de condenação, os xingamentos, e todo ódio jogado contra o condenado. Não sei como aconteceu, mas nós havíamos trocado de lugar. Era como se eu me visse de fora. Vi toda a fúria da turba contra mim sendo vociferada contra ele. Ainda confuso, consegui divisar que o culpado era eu, não aquele homem. Com o pobre senso de justiça que ainda me restava, tentei avisar a multidão, mas os xingamentos era mais altos que meus apelos. Todo esforço era em vão.

Eles o arrastaram para o pátio. Vi quando um homem baixinho lhe deu uma rasteira, e agora caído com a face no chão, as pedras começaram a atravessar o ar. Eu não quis olhar, então fechei os olhos. Quando os abri novamente, havia muito sangue. Sangue nele, e sangue no chão. Continuaram jogando algumas pedras, mas ele não reagia, só olhava para a estaca. Tentei fazê-los parar, mas inúteis foram meus esforços. Eram muitos, e eles finalmente o penduraram no madeiro.

Eu chorei. Eles haviam matado o homem errado. Eles mataram O Inocente. Deitei-me no chão, lembrei-me de Deus e gritava perdão. Puxava maços de terra, e gritava perdão. Enfiei a cara na areia, e gritava perdão. "Fui eu! Fui eu! Não ele, não foi ele! Não era ele Senhor, era eu!". As pessoas foram embora, e agora restávamos nós dois. O Corpo e eu. O Inocente morto, e o culpado gritante.

Depois de certo tempo perdi a voz. O céu enegreceu e uma sensação de paz estranha habitava minha alma. Comprovei que o choro de fato acalma a alma. Quando gastei todas as reservas de lágrimas, sentei-me no chão, e olhei a estaca. Não havia ninguém lá, ele tinha sumido. Olhei ao redor por cento e oitenta graus duas vezes, não havia ninguém lá. Gelei quando levantei a cabeça. Aquele homem, agora vivo inclinado sobre mim, olhava-me no chão.

Seus olhos eram grandes e profundos, e carregava ainda aquele mesmo semblante pacífico que havia me encontrado na condenação. Tentei dizer-lhe alguma coisa, explicar o mal entendido, e foi quando tentei falar e a voz não saiu que lembrei: havia perdido toda voz gritando perdão.

Ele sorriu, olhou dentro da minha alma como a luz atravessa um cristal, e num tom limpo e amável falou: "Faça valer a pena". Ergueu-me do chão, e quando um ventinho morno me obrigou a finalmente cerrar os olhos antes esbugalhados, ele desapareceu.

(Crônicas Jockeanas)

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Inspiração: "Isso é amor. Pois sendo eu culpado, tomou minha sentença sobre si e me salvou." - (Música: Isso é Amor, Vocal Livre)

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Graça aos Miseráveis

Se vai tudo bem com a igreja em nossos dias, então Cristo mentiu quando escreveu endereçada a nós a carta apocalíptica de Laodiceia, e ele não teria razão alguma em dizer que irá vomitar-nos de Sua boca como disse que faria. Mas se Cristo disse a verdade, e somos mesmo os miseráveis que ele disse que somos, onde se esconderam aqueles que lutam e propagam que O Juízo se aproxima, que estamos cegos, pobres e nus diante da prescrutadora justiça perfeita de Deus?

Há uma ira vindoura prestes a desabar sobre nossas cabeças, exigindo a penalidade que nossos atos merecem. Não é tirania de Deus, é pura justiça. Pecamos e somos reconhecidamente dignos da exclusão existencial. E cá nos encontramos: em campo aberto, nus e desprotegidos pelos nossos pecados diante de tremenda e justa tempestade.

Miserável. Repita comigo: Eu sou um miserável diante de Deus. Estou pobre, cego e nu diante da Sua justiça perfeita.

Amigo, corramos para Cristo! Fujamos para nos esconder nEle. Li num livro que "Ele é capaz de salvar definitivamente aqueles que, por meio dele, aproximam-se de Deus" (Hebreus 7:25), mesmo o maior dos miseráveis pode encontrar abrigo nEle, mesmo você e eu.
A isso chamam graça.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Experimento Social

Sabe aquelas pessoas que demonstram firmeza absoluta, quase onisciente, que parecem ter resposta a todas as perguntas e criam perguntas para suas próprias respostas, jamais erram mas possivelmente se enganem, tomam em pouca conta qualquer opinião diferente da sua e agem com tamanha soberba como se fossem o modelo de ser humano ideal?

Pois bem, eu gostaria de ver como seria um país inteiro formado apenas por réplicas de pessoas assim. Imagine-a como o cliente e também o atendente do caixa ao mesmo tempo, imagine-a pagando e dando a si mesma o troco do ônibus, como se auto-atendendo no telemarketing, solicitando os próprios dados para fazer seu cartão de crédito, cortando seu próprio cabelo, colocando sua própria gasolina e enchendo os pneus do carro, vendendo a si mesma seu próprio sapato, comendo e servindo sua comida. Imagine-a no país encantado chamado Ego. Ah, que coisa linda! Lá onde o 'eu' reina supremo. Onde todos são perfeitos aos próprios olhos. Eca!


Seria uma beleza, não seria? Não, não seria... Seria o caos, a estupidez elevada a sua enésima potência, o nojo próprio em seu mais elevado nível. No país dos narizes tortos, a grosseria reinaria suprema neste reino soberbo, tolo, frágil e infantil.

Graças sejam dadas a Deus pelas pessoas simples e humildes, sofredoras e simpáticas, pessoas fortes que sustentam o luxo e a insensibilidade dos adultos infantis, que fazem nosso dia mais leve, que são reais, que nos entendem, que respiram o mesmo ar do mesmo planeta e que também sangram. Graças sejam dadas a Deus pelas outras pessoas não serem como eu.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Seja "Macho"



Ser "macho" para o homem atual é:
  • xingar pesado nos jogos do seu time do coração;
  • beber e sair com várias mulheres "gostosas" pra se amostrar com os amigos e depois doar sangue pra saber se contraiu uma DST;
  • -fumar sabendo dos riscos de câncer;
  • praticar, assistir e falar sobre MMA;
  • ter bíceps e peitoral grande pra andar com uma camisa colada (ou sem camisa);
  • ter um carro esportivo pra se exibir pela cidade;
  • ter um equipamento de som potente pra alguma coisa que eu ainda não entendi o motivo, se apenas um fone de ouvido resolveria.

Já ser "Macho" segundo Cristo é:
  • ser gentil com quem te despreza;
  • oferecer a outra bochecha pra quem te deu um murro;
  • amar seus inimigos;
  • se humilhar para beneficiar alguém que te prejudicou;
  • se sacrificar pelas pessoas secretamente e sem desejar recompensas;
  • dominar seus vícios e rejeitá-los em lugar de ser dominado por eles;
  • falar bem de quem te difama e fofoca sobre sua vida;

Bom, acho que qualquer covarde pode ser um "macho" da atualidade. Mas só um homem de verdade, macho mesmo, encararia o desafio de ser "Macho" segundo Cristo.
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