quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Estarei Aqui

Quando desistir de uma vida de aparências,
eu estarei aqui para lhe oferecer A Essência
que sempre esteve em mim.
Então, você entenderá a fundamental diferença
que há entre viver e apenas existir.

(Jesus Cristo, Cf. João 4:10-14)

Mansidão

Eu havia acabado de dar os primeiros passos sobre o cume do monte que quase morri tentando alcançar, e, agora que minha tarefa parecia completa, minhas pernas já tremiam e queimavam tanto que o chão parecia me fazer o convite para deitar. Com as mãos bastante feridas das vezes que precisei me agarrar em pedras enquanto subia para não despencar despenhadeiro abaixo, apoiei a direita e em seguida levei um dos joelhos menos esfolados para conseguir algum apoio. Foi quando notei, pela dor, que duas ou três costelas pareciam estar fora do lugar - talvez isso explicasse como era difícil fazer o ar entrar quando inspirava.

Mal terminei o dolorido movimento quando, de relance, e com um dos olhos inchados, vi ali no canto a silhueta de uma figura real sob um manto marrom: esplêndida, alta, nobre e que, de costas para mim, parecia contemplar pacificamente o outro lado do monte que subi.

Ao notá-lo em minha visão, meu braço enfraqueceu, bati o cotovelo na terra e logo em seguida fui de face ao chão - doeu muito. Doía tudo. Eu parecia um espantalho que pouco se mexia e o que restava do corpo murmurava. Ainda caído, quase desmaiando, parei por um dois segundos para observá-lo, e sua presença, assim como vi na primeira vez, era algo formidável. Era como se uma atmosfera de paz e serenidade o envolvesse. Sua presença era a mais agradável das presenças. Não perguntei quem era, pois sabia que só um alguém podia ser assim. Juntei um pouco de força que nem sabia mais ter, e depois de algumas tentativas, eu estava quase de pé - meio farrapo, meio homem que se locomovia sobre o chão.

Curvei-me com dor para lhe dizer:
- Meu Senhor e meu Rei, cheguei ao cume do monte como fui ordenado. Quase morri muitas vezes, pouca força me restou da jornada, mas aqui estou conforme a sua vontade.
- Muito bem, meu filho, - uma voz profunda e amável ecoou ao nosso redor quando ele falou ainda de costas, sem se virar - agora venha para junto de mim e veja o que vejo.

Ao ouvi-lo dizer "venha", minha coluna ficou ereta, perdi todo o senso da dor e andei suave e perfeitamente até me por ao seu lado. Estávamos à beira de uma elevação que se estendia longamente até a base, e ao seu final se convertia numa planície muito extensa. Ela estava superpovoada por criaturas gigantes, cobertas com sangue, tinham braços desproporcionais e dentes expostos e salivantes. Eram milhares e milhares deles, das mais diferentes formas e deformidades. Todos estavam raivosos, olhavam para nós e pareciam prontos a nos atacar.

- Meu Senhor! - exclamei subitamente e virei-me para vê-lo. Seu rosto estava molhado e a cena mais linda que até então eu jamais havia visto aconteceu. Vi quando uma nova lágrima brotou do seu globo ocular e ela brilhava imensamente. Esférica e límpida como cristal, brilhante como que tendo luz própria.  Nunca imaginei que pudesse haver beleza tão semelhante ao ver alguém chorar.

- Meu Senhor! - exclamei de surpresa por nunca ter ouvido em tantas lendas de que alguém o tenha visto chorar. Não sabia o que dizer, e percebi que ele estava chorando por olhar a multidão de deformados na planície lá embaixo, à nossa frente.

Eles eram tão grandes e horrendos! Aqueles dentes expostos e pontiagudos, aquelas garras prontas a me destroçar. Engoli de medo e meu pé parecia recuar.

- Você irá enfrentá-los e vencê-los. - ele me disse.
- Mas meu Rei, eu...
- Seja forte e corajoso.

Foi enquanto o ouvi, que algumas coisas aconteceram. Eis que ao ouvi-lo dizer "seja forte", a linha côncava do meu peito se inverteu pondo-se para fora, e filetes de aço se estenderam de cima abaixo até que o dorso do meu peito se tornou de metal. Ao mesmo tempo, meus braços e os punhos se avolumaram e enrijeceram até quase petrificar, mas ainda eram flexíveis nas articulações. Minhas pernas absorveram grande volume muscular e notei que o novo peso era tamanho que me fez afundar um pouco mais no chão. Eu não sabia até então, mas havia aumentado muitíssimo meu tamanho original. Meu próprio corpo parecia uma armadura gloriosa.

Quando o ouvi dizer a palavra "corajoso", minha cabeça se inclinou para frente e a coluna se alinhou juntamente, as estruturas dos meus pés se alongaram e meu tornozelo se tornou muitas vezes mais flexível que o normal. Estendi os braços para me apoiar enquanto a cabeça parecia apontar para meus inimigos. Em posição de disparo, eu estava como uma arma de guerra viva, uma flecha gigante, pronta para ser atirada quando ele continuou:

- Ainda está com medo? - ele perguntou.
- Não, meu senhor. - olhando fixamente para a multidão, respondi num tom muitíssimo grave e sereno, agora como se dez vozes respondessem ao mesmo tempo comigo, de modo que ao expelir o ar pela garganta, era possível ouvir o som estalar. E continuei:

 - Na verdade, sinto como se pudesse destruí-los a todos. Posso esmagá-los facilmente, e não sobraria ninguém.
- Pois muito bem, - ele me disse - agora desfaça-se de toda sua força e poder, e sacrifique-se por eles a fim de salvá-los.

Eu poderia ter ficado chocado ao descobrir que tendo a força de todo um exército num homem só, deveria usar tudo o que recebi para salvar os mesmos monstros que me queriam devorar. Mas não só meu corpo havia mudado. Eu entendia parte do seu plano, então afirmei sem questionar:

- Sim, meu Senhor. E como se chama todo esse poder que devo manter sob domínio para salvá-los?
- Mansidão, meu filho. Mansidão é o nome desse poder. Agora vá.

Quando me dei conta de que a ordem havia chegado aos meus ouvidos, eu já havia descido mais da metade de todo o declive. Os que antes chamei de inimigos começaram a recuar. Mas minha velocidade diminuiu pois meus tendões derreteram. Meus pés encurtaram, meu peito se desfez e meus punhos quebraram.

Vendo-me indefeso, eles perderam o medo, se achegaram curiosos, e então eu comecei a falar:

- "Eis que no princípio era o Verbo..."

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Resenha - Uma Força Medonha, C. S. Lewis

Uma Força Medonha, C. S. Lewis
(★★☆☆☆)

Este é o último volume da trilogia espacial de Lewis. Leitura obrigatória para quem esteve em Narnia, gostou da ficção lewisiana e já ouviu falar da amizade de Lewis com Tolkien - representado na trilogia pelo Dr. Ransom.

Este é, até o momento, o livro de Lewis que menos gostei. A história é extensa, com uma trama bem desenhada e estranhamente emaranhada. Com complexidades que só a realidade costuma apresentar.

Passei a maior parte do livro esperando aquele momento em que a história finalmente parece caber na minha mente e começa a desenhar um sentido para dar desfecho a trilogia, mas esse momento veio aos poucos e não com um desfecho como os que presenciei em As Crônicas de Narnia.

Na verdade, esse Lewis da trilogia espacial não me pareceu o mesmo que desenhou Aslam. Uma rápida investigação me mostrou que Lewis ainda amadureceria muito do aspecto ficcional até chegar em Narnia. Essa trilogia foi escrita muito antes, e tem propósitos mais específicos, especialmente filosóficos com algum cunho cristão. Provavelmente, Lewis tinha a intenção de nos fazer refletir sobre o conflito cósmico entre o bem e o mal. E fez-me refletir sobre minha posição nesse conflito várias vezes.

A linguagem não é a mais clara, mas possivelmente pela tradução da editora. A leitura, como observa Lewis no prefácio, pode até ser feita independente das obras anteriores, a saber Além do Planeta Silencioso e Perelandra. Pode-se observar a paixão de Lewis pela literatura medieval e lendas arturianas - algo que já tinha lido a respeito na biografia de Lewis escrita por Alister McGrath (excelente, por sinal).

A trilogia vale muito mais à pena pelos dois volumes anteriores que são muito interessantes, e a leitura deste último, torna-se portanto, obrigatória.

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Resenha - Graça Abundante ao Principal dos Pecadores, John Bunyan

Graça Abundante ao Principal dos Pecadores, John Bunyan
(★★★★★)

Estava eu lendo O Grande Conflito, obra consagrada de Ellen G. White, quando ela me dá o testemunho especial da vida de John Bunyan (1628 - 1688) - um antigo homem de Deus, preso por não desistir de falar de Cristo por circunstância alguma.

Eis o que li em O Grande Conflito: "Em nauseabundo calabouço, repleto de devassos e traidores, João Bunyan respirava a própria atmosfera do Céu; e ali escreveu a maravilhosa alegoria da viagem do peregrino, da terra da destruição para a cidade celestial. Por mais de dois séculos aquela voz da cadeia de Bedford tem falado com poder penetrante ao coração dos homens. O Peregrino e Graça Abundante ao Principal dos Pecadores, escritos por Bunyan, têm guiado muitos à senda da vida." (O Grande Conflito, p. 252)

Bunyan ficou 12 anos no cárcere por se recusar a para de pregar o evangelho. E foi lá, dentro da cadeia, que ele escreveu o que viria a ser o maior clássico da literatura cristã de todos os tempos, depois da Bíblia. O Peregrino (1678) tornou-se um livro especial demais para mim. Ao lê-lo, descobri alguém que adquiriu uma visão muito precisa e profundamente espiritual da vida cristã, e me aconselhou bastante. Fiquei muito feliz e impressionado com a similaridade das experiências vividas por Cristão, a personagem da estória de Bunyan. A importância dessa obra para minha vida, de uma fase em especial da qual fui completamente confortado, eu pouco consigo descrever, Deus o sabe. Isso confirmou outras recomendações que já tinha ouvido sobre O Peregrino.

Um outro escritor por quem tenho a maior estima também me falou de Bunyan. Utilizado como argumento em Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis cita a vida de Bunyan como uma evidência da inteligência inerente ao cristianismo: "Deus não detesta menos os intelectualmente
preguiçosos do que qualquer outro tipo de preguiçoso. Se você está pensando em se tornar cristão, eu lhe aviso que estará embarcando em algo que vai ocupar toda a sua pessoa, inclusive o cérebro. Felizmente, existe uma compensação. Aquele que se esforça honestamente para ser cristão logo percebe que sua inteligência está aprimorada. Um dos motivos pelos quais não é necessário grande estudo para se tornar cristão é que o cristianismo é em si mesmo uma educação. Foi por isso que um crente ignorante, como Bunyan, foi capaz de escrever um livro que espantou o mundo inteiro".

Coisas como essa, é claro, fizeram minha curiosidade por Bunyan crescer bastante. E foi numa visita informal a uma amiga que falei de Bunyan, e fui surpreendido de duas formas por ela. A primeira foi de ela ter essa obra em casa; e a segunda, de me presentear ali mesmo com ela! Ganhei 'Graça Abundante ao Principal dos Pecadores' de presente naquele dia. Muito obrigado, Evelyn!

Esta é a autobiografia de Bunyan. Mais recomendada pelos frutos de sua vida do que pela obra em si. Bunyan foi chamado de ignorante por C. S. Lewis por sua pobreza lastimosa em educação formal. Filho de um latoeiro (consertador de panelas e vasilhas), Bunyan era de fato muito pobre e bastante vazio intelectualmente. Talvez arruaceiro na idade pueril, tinha uma boca bastante inclinada a praguejar e ofender, como ele mesmo diz.

Aos poucos, sua consciência foi despertada pelo Espírito Santo, e ele se tornou um homem de caráter firme e nobre. Possuía um forte apelo pela necessidade de viver vida santificada, e isso o levava a vales profundos de conflito pessoal. A vida de Bunyan foi marcada por densos rios de angústia com momentos de regozijo. Sua necessidade de perdão e de pertencer a Cristo era tudo o que ocupava sua consciência.

Pregador ousado, Bunyan passou a reconhecer o dom de falar de Cristo aos pecadores, e foi também reconhecido por isso. Multidões se reuniam para ouvi-lo falar da Palavra de Deus, e por isso mesmo foi perseguido e preso.

Sua biografia, contudo, é marcada pelas descrições detalhadas das experiências espirituais profundas que viveu, e que acredito, não ser familiar a maioria dos cristãos modernos. Muitos o julgariam digno de pena e necessitado de apoio médico profissional. Mas foi através de uma vida frágil como essa que Deus fez um servo de fibra espiritual inquebrantável, e, talvez, o cristão moderno mais influente de todos os tempos através de suas obras escritas.

Não recomendo essa obra para o público em geral com outros objetivos de leitura. Mas se você, como eu, tem profundos conflitos pela necessidade do perdão do Céu e dificuldades de explicar suas experiências espirituais para outras pessoas, acredito que Bunyan pode lhe ser grande fonte de conforto e instrução. De fato, Graça Abundante ao Principal dos Pecadores adquiriu profundíssimo significado para mim pela semelhança de suas experiências espirituais (com a ressalva de que as dele são, obviamente, muito mais intensas) a ponto de poder dizer aos meus amigos que, se eles, por acaso, tiverem algum interesse em conhecer partes da minha vida que não sou capaz de explicar, leiam essa obra. É minha biografia escrita por alguém do século XVII. De uma forma difícil de definir, John Bunyan sou eu.

domingo, 17 de abril de 2016

Se Cristo Tivesse Aplicado uma Prova de Seleção


Se Cristo tivesse aplicado uma prova de seleção para a escolha dos apóstolos, quem estuda os evangelhos sabe que, dos doze, era bem provável que Judas fosse um dos poucos aprovados. Ora, boa parte dos discípulos era composta de homens pobres, com pouca instrução formal e certas dificuldades emocionais. Já Judas possuía certa habilidade financeira, e talvez por isso mesmo tenha sido eleito tesoureiro do grupo. Isso nos mostra o quanto Cristo estava mais à procura de pecadores sinceros do que de homens capacitados. Ao que tudo indica, um coração contrito tinha-lhe mais valor do que diplomas acadêmicos.

Havia em seu tempo muitos doutores da Lei, versados em língua hebraica e mestres da Torá. Mas ele preferiu alguns humildes pescadores dentre o povo comum. Não acredito que Jesus tenha mudado de opinião nos nossos dias. Acho que ele ainda procura aquele punhado de homens humildes e sinceros no meio da multidão.

Talvez Jesus queira mesmo aquele Pedro contrito, mas um tanto orgulhoso. Talvez ele busque o João estourado, mas de coração sensível. Talvez ele queira mesmo o Tiago rude, mas de íntimo sincero.
Se os critérios de seleção de Jesus são tão diferentes assim, talvez Jesus ainda procure pessoas comuns hoje em dia. Talvez as pessoas que ele ainda procure são pessoas assim, difíceis, complicadas, duras, mas pessoas sinceras. Talvez com um perfil não tão recomendável. Sendo esse o caso, talvez ele procure pessoas desse tipo... tipo eu, tipo você!

segunda-feira, 21 de março de 2016

Eu confundi as divindades

Uma das últimas fortes tentações que sofri foi a de abandonar a própria fé em Deus por frustrações de apoio que esperava ter recebido dele quando muito precisei. E preciso admitir que talvez eu o tivesse mesmo abandonado se não fosse por Cristo. Percebo que é fácil desistir de um deus imaginário que alimento em minha mente, baseado em suposições e expectativas; ou do deus-miragem que formulo das experiências relatadas de outras pessoas. É fácil perder a fé no que não existe. Afinal, eu alimentava expectativas baseadas em quê? Em quê você baseia as suas? Advirto-lhe: é fácil perder a fé no que não existe. Existe um Deus, e existem concepções particulares, divindades pessoais, de quem ele deveria ser, na mente de cada um. E é provável que estejamos errados em muitas dessas concepções. Eu confundi as divindades.
Por outro lado, também preciso constatar uma verdade exuberante a esse respeito, e que possivelmente jamais descobriria possuir se não me defrontasse com a real possibilidade de perdê-la. De fato, talvez eu desistisse do meu deus particular, o que formulei em minha mente por mim mesmo e do qual esperava um determinado apoio; mas não me foi possível desistir do Deus em quem Jesus cria. Ele é diferente, porque ele é real.
Entendo melhor agora o quanto minha fé depende fundamentalmente de Jesus de Nazaré. O quanto a fé de todo cristão depende. Percebo também que muitos perderão por completo uma fé que supõem ter, se esta não estiver firmemente baseada em Cristo - nossa concreta realidade espiritual inegável. Na verdade, não posso chamar de fé cristã uma crença que se baseie mais nas minhas linhas de suposição e imaginação, do que na concretude irrefutável de conhecer pessoalmente a Cristo. Por isso, o amado João fez questão de deixar registrado: "Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido" (João 1:18). Portanto, não imagine Deus, conheça Cristo. "Quem me vê a mim vê o Pai", ele disse. Precisamos ver Jesus, logo, digo.
Note o quão desafiador é crer em algo que não existe.
Com frequência, formulamos divindades pessoais, mini-deuses pagãos, forjados a imagem e semelhança de quem não conhece o Salvador. Criamos em nossa mente, Deus a nossa imagem e semelhança. Forte dizer, mas conclusão necessária: todo cristão que não conhece Jesus é idólatra da mais cruel divindade já formulada pela imaginação humana: um deus chamado 'eu mesmo'. A mais frustrante de todas as divindades.
Agora, amigo, dirijo-me a você de forma direta: se sua fé baseia-se em expectativas pessoais a respeito de um deus sentido pelas emoções, ensinado por seus pais, ou mantido pelas tradições de sua igreja, esse deus, pelo simples fato de não existir, é proporcionalmente simples de abandonar.
Rejeite logo esse deus que lhe traz tantas frustrações - essa divindade maléfica, na verdade, é você mesmo! O Deus real, Aquele das Escrituras, só foi verdadeiramente apresentado por Cristo - "Ele é a imagem do Deus invisível". Em Cristo, o Criador possui um rosto, um caráter definido, por meio do qual todo homem pode se deixar cativar. Fé é apenas uma palavra nula, sem Jesus de Nazaré.
Deixo-lhe por fim, o que poderá ser uma valiosa lição para ter fé; a de que só é possível crer em Deus se estivermos "olhando para Jesus, autor e consumidor" dela (Hebreus 12:2). Abra os evangelhos e conheça a Deus por meio de Cristo.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Minha Trincheira Monumental

Faço de Cristo uma trincheira monumental por trás da qual eu me escondo. Nesse sentido, eu admito ser covarde. Covardia da qual em nada sinto remorso, pelo contrário, sonho ser perito nessa arte.

Desejo, não de forma impulsiva, mas proposital, e porque não dizer também com grande esforço, passar a maior parte do tempo escondido nEle. E eis aí a razão pela qual a maioria dos meus próprios amigos mal me conhecem. Na verdade, meus dias mais felizes são os dias em que nem minha família me descobre. E como eles ficam felizes também! Mas tem que ser cedinho. Assim que acordo preciso fazer dessa minha primeira tarefa: Vai! Corre para Cristo e se esconde! Oro para que ninguém me veja. Frequentemente eu fracasso. Sem as etiquetas de Drummond, eu realmente "tiro glória de minha anulação".

A razão para toda essa fuga é um tanto óbvia. Como disse Lispector, sou paupérrimo de alma. Mas nem sempre soube sê-lo. Orgulho é cegueira auto-imune. Experimentei ser "eu mesmo" por algum tempo para descobrir que as coisas que julguei interessantíssimas, eram uma pazinha de plástico e areia do quintal. Fazia morrinhos, e na minha cabeça julgava ter erguido os Jardins Suspensos de Nabucodonosor. Essa coisa de "eu mesmo" é puro besteirol! Coisa de moleque. Eu diria 'coitado' de uma pessoa assim, como eu, e digo: coitado!

Eu não sei explicar, e sempre me senti frustrado das vezes que tentei, mas essa confluência original que há no Filho de Deus, essa singularidade atômica de ser absorvido nEle, ao que chamei de forma pueril e ao mesmo tempo bíblica de me "esconder" (outros chamam de 'estar em comunhão'), miraculosamente me habilita a abrigar nesse meu corpo finito - massa compacta de células em setenta quilos - a assombrosa complexidade de toda a realidade que está fora de mim. Estar com Cristo, pode ser dito uma experiência em variadas dimensões. Minha alma antes vergonhosamente pobre, passa a possuir vasto conteúdo com Ele. Meu corpo vira casca que abriga o infinito. Minha presença fétida e orgulhosamente desagradável, torna-se mansa e serena; pacífica a quem de Nós agora se achega. Uma atmosfera diferente nos envolve. Fico tentado a não desejar conhecer o resto do universo se puder conhecer melhor o Filho de Deus - como Ele é imenso! Não é de se estranhar que João, o profeta do deserto, desejasse diminuir para que Ele crescesse - isso é glória em autoanulação. Ou que Paulo afirmasse ser a morte um lucro se com isso ganhasse a vida que há em Cristo. Ele mesmo comparou as glórias humanas com esterco, tamanha a imensidão do Filho de Deus, "em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência"! (Cf. Filipenses 3:8; Colossenses 2:3)

Certa feita vi num filme trágico a morte de um garoto que chegou a essa conclusão pouco antes de sucumbir: "happiness is only real when shared" (felicidade só é real quando compartilhada) - pôs num caderninho e morreu. Quanta verdade há nisso para os que se escondem em Jesus, aquele Carpinteiro de Nazaré a quem foi dito ser "o mistério de Deus" (Colossenses 2:2). Unido com Cristo me torno infinito.

Se meus cálculos estiverem corretos, tudo está em Cristo. Está tudo oculto nEle.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Resenha - Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis

Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis
(★★★★★)


Repetidamente recomendada, inconscientemente citada, essa é para mim, a obra mais relevante de C. S. Lewis. Não sei ao certo porque não escrevi sobre ela antes, mas há tempo para tudo debaixo do sol. Esse livro teve e ainda tem muita importância para mim na maneira como hoje raciocínio a realidade por meio da fé.

Escrita no contexto da segunda gerra mundial, foi elaborada para ser transmitida via rádio a convite da BBC e depois convertida no volume como a conhecemos. Cristianismo Puro e Simples é com certeza uma das obras mais impactantes de um dos pensadores mais brilhantes do cristianismo que atravessou o mundo moderno e chegou a pós-modernidade sem perder em nada da sua relevância. À medida que o raciocínio e a decadência da moral humana avançam, Cristianismo Puro e Simples adquire fluorescência aos ateus questionadores sinceros, acredito que também especialmente aos agnósticos, e fortalece a fé dos cristãos que desejam ter um raciocínio mais consolidado. É um livro de apologética com linguagem acessível a todos os interessados.

Aviso: Os que leram as Crônicas de Narnia, mas não conhecem essa obra, não conhecem também o teor sólido por trás das Crônicas.

Lewis apresenta o cristianismo como o título do livro se propõe a fazer: de forma pura e simples. Sem tomar partido para qualquer denominação religiosa, ou fazer defesas de doutrinas particulares, de forma clara, concisa e brilhante, Lewis aborda os temas mais basilares da religião cristã; a começar pela própria defesa da existência de Deus como uma mente consciente e agente formulador da distinção entre certo e errado, por meio do que os teólogos chamam de "o Argumento Moral".

Enquanto lia, me sentia transportado pela argumentação bastante sincera de Lewis, que antes fora ateu convicto, e agora, rendido à necessidade de admitir a existência do Criador que se revelou por meio de Jesus, explica como sua mente apreendeu a realidade tal como o cristianismo a pode revelar a um ser pensante.

A obra é recheada de citações que circulam hoje pela internet. Além da existência de Deus, aborda também a moralidade cristã, a natureza divina, o pecado e sua fonte original na natureza humana, entre outros temas muitíssimo interessantes.

Destaco o capítulo que posso dizer ter marcado minha consciência como ser humano: "O Grande Pecado". Estava no ônibus enquanto lia. Se você estivesse lá para me observar, veria alguns sorrisos, e depois espantos, e algumas pausas para oração. "Meu Deus, eu sou terrível!", vinha à minha mente. "Meu Deus, esse sou eu". Foi uma experiência inesquecível da qual compartilho até hoje com meus amigos, de tão edificante que me foi entender a raiz de todas as minhas corrupções: o orgulho. De vez em quando você me verá falando ou escrevendo sobre ele, simplesmente porque para Lewis, todo pecado é orgulho manifestado em alguma de suas vertentes. Se você entender isso, vai entender também como orar de forma mais específica, e lutar pela transformação do seu caráter para ser mais semelhante a Cristo. Só por esse capítulo, para mim, a obra toda valeria à pena.

Depois de lê-lo, você deve obter uma visão muito mais ampla da vida cristã; um raciocínio mais mais claro para ter certeza do porquê o cristianismo faz mesmo todo o sentido, e terá argumentos muito mais sinceros para manter sua fé em Cristo. Outro benefício para mim, foi ter sido ajudado quanto ao preconceito com outros cristãos que pensam diferente de mim. Acho que esse livro me ajudou a procurar ouvir melhor, me colocar no lugar do outro pensante e tentar entender o porquê essa pessoa raciocina dessa forma.

Considero uma ótima dica de presente a amigos questionadores, descrentes ou curiosos. Pode render conversas muito mais profundas, apesar de não entrar em méritos doutrinários evitando esse tipo de conflito. Cristianismo Puro e Simples, porque vale à pena entender melhor os conceitos que fundamentam sua fé (ou a falta dela).

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Elas São como Você

É importante ser tolerante, compassivo e misericordioso com as pessoas com as quais entramos em contato. Todas estão travando batalhas silenciosas das quais você não possui a menor ideia.

Seu chefe duro e exigente está a ponto de enlouquecer por causa do casamento frustrado que está quase no fim e tem medo de perder os filhos para a mulher que o traiu. O médico que lhe distratou tem uma filha em estado vegetativo e se sente pequeno, frágil e impotente por não saber mais como ajudá-la ou prolongar a sua vida. Seu professor incompreensivo e que lhe faz constantes ameaças humilhantes, luta contra uma depressão severa depois que perdeu a mãe pro câncer há dois anos - todas as noites toma remédios fortes para conseguir dormir. Seu colega de trabalho chato, esnobe e trapaceiro, tem problemas de auto-estima por ter sido abusado sexualmente pelo tio na infância.

E eu poderia ilustrar uma infinidade de casos semelhantes que, concordo, não justificam em todas as situações as ações dessas pessoas, mas você deve concordar comigo que explicam muita coisa.

Uma outra razão para sermos mais tolerantes, compassivos e misericordiosos com elas, é que, na verdade, nós somos como elas, apenas com circunstâncias e endereços diferentes; mas estamos todos em lutas por aqui - não se torne mais um oponente para alguém que está quase sem forças. Olhe ao seu redor, amigo! São todos soldados feridos; são todos guerreiros disfarçados. Olhe ao seu redor, mas olhe atentamente. Um grito raivoso, pode ser um grito de socorro; um olhar rancoroso, pode ser de dor; uma palavra dura, pode ser um desabafo incontido.

É por isso que eu lhe peço: tenha mais paciência com as pessoas, elas são como você. Elas também sangram.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Amor em Carne e Osso

O amor. Faz um tempo que amor resolveu que precisava se materializar para ser aceito pelas pessoas. Ele então, que sempre fora abstrato, vestiu-se de carne; pôs ossos que sustentassem os músculos, cobriu-se de pele e pôs unhas, pêlos e cabelos. Ficou idêntico a nós. Você não veria distinção material nesse agente disfarçado. E certo dia de manhã, o amor nasceu humano. Agora o amor tinha mãos e pernas, andou entre nós e nos tocou. Muitos logo se alegraram com ele. Agora tão concreto, visível, tocável e, assim, tão amável. Mas as pessoas não gostaram quando o amor exigiu reciprocidade. Porque você sabe: o amor é exigente no quesito compromisso. Puxa, foi horrível. Mas as pessoas puxaram o amor pelos cabelos e bateram muito nele. O amor apanhava na cara. Foi humilhado. Foi acusado. Cuspiram nele. Traíram o amor. Mas as pessoas ataram suas mãos até que o penduraram numa Cruz. O amor sofreu, chorou, amou e por fim morreu de amor. Mataram o amor, menininha. Mas você sabe, o amor não morre; se transforma e amadurece. Morrer era parte do plano, você sabe. Agora eu também o amo, e descobri que sem sacrifício não há amor, querida. E é por isso que hoje eu morro um pouquinho por você; abdico alguns gostos, renego idiossincrasias e pessoalidades, cuspo fora meus egoísmos. Hoje eu morro um pouquinho por você, só pra dizer que eu também lhe amo porque Ele me amou primeiro.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Plantio de Novelas e Romance de Batatas

Seja uma pessoa crítica, mas não uma pessoa crítica demais. As pessoas críticas demais são duras de se conviver e uma companhia do tipo mais desagradável, mesmo quando têm razão. Digo isso porque, na vida, há coisas mais importantes do que sempre ter razão e encontrar as falhas de todas as coisas. Observe a solidão delas e comprove. Se por um lado o senso crítico é uma potente ferramenta contra a alienação, por outro, o criticismo é alienador de quem o possui, ou melhor dizendo, de quem é possuído por ele.

É fenômeno comum de que as pessoas críticas demais são sempre críticas com relação aos outros, mas nunca sobre si mesmas. E é justamente por isso que são as mais alienadas. O senso crítico genuíno tem por natureza intrínseca ser crítico sobre aquilo que mais estamos familiarizados, e ninguém está mais familiarizado com outra coisa senão consigo mesmo. O escritor de romances será respeitado ao comentar a novela das oito, mas deve reconhecer sua ignorância sobre o plantio de batatas. Que o romancista critique novelas, e o agricultor analise batatas. Numa inversão de papéis, teríamos uma plantação de novelas e um romance sobre batatas? Ora, você convive consigo durante todo o tempo de sua existência, e deveria, portanto, ser o melhor e mais perito crítico sobre si mesmo no mundo. É por isso que ser crítico lhe conduz a humildade e ao desejo de ajudar os que são como você. Mas as pessoas críticas demais são especialistas em apontar as falhas dos outros, justamente por serem alienadas de si mesmas, e isso pelo forte criticismo que as possui. As pessoas críticas demais são vampíricas, não possuem reflexo. Em certo sentido elas não podem se ver, nem ao menos se conhecem. Querem que romances sobre batatas façam sucesso, alcancem altos índices de audiência. Coisa ridícula, eu sei. É ridículo ser crítico demais.


Seja uma pessoa crítica, especialista sobre os próprios defeitos, mas não uma pessoa crítica demais. Pessoas críticas demais são tão interessantes e realistas quanto romances sobre batatas.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Órfão

Deus tinha um filho legítimo, mas deixou que ele morresse para poder adotar um outro que era órfão. Foi uma situação complicada. Não era possível ter os dois ao mesmo tempo da mesma maneira. Ainda não entendi perfeitamente por que Ele fez isso ou como tudo se deu. Mas descobri, não faz muito tempo, que o filho era Cristo, e o órfão era eu.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Bob Marley, Problemas e Jesus Cristo

Às vezes a gente entende coisas bem significativas para a vida de maneiras inesperadas. Eu, por exemplo, nunca gostei de reggae, e de fato, continuo não gostando (respeito a quem, por acaso, lhe apeteça), mas ainda no ano passado, em meio às preocupações e correrias da vida, eu estava em extremo preocupado com o andamento de alguns objetivos acadêmicos e acabei aprendendo uma lição cristã bem importante com Bob Marley.

Acontece que uma de suas músicas fez parte de um filme de animação, desses feitos pra família. Um ratinho está tendo um dia péssimo depois de ter sofrido descarga, e flutuando no esgoto, meio sem direção, quando quatro lesmas passam cantando num lampião a boiar por dezessete segundos: "Don't worry, be happy" (em inglês: 'não se preocupe, seja feliz'). Reconheço que deve ser difícil ser feliz e não se preocupar quando você sofre descarga e fica perdido no esgoto. Mas pra encurtar a história, meu irmão me indicou uma outra música parecida do mesmo autor que em certa parte da letra, reafirma algo que Jesus já havia dito, mas que me ajudou a entendê-lo sobre uma perspectiva diferente. No meio daquele esgoto de preocupações, o que Cristo ensinou fez então todo o sentido para mim. Jesus apontou à vida despreocupada dos passarinhos que não sabem sequer se terão o que comer, e ensinava que é um desperdício de energia se preocupar quando temos problemas. Parece absurdo, mas é isso que Cristo ensina para quem deixa sua vida nas mãos de Deus. Simplesmente, "não ande preocupado, Deus sabe do que você precisa", Ele disse.

Falando de três passarinhos (Jesus usou a mesma figura para falar do mesmo assunto, hehe), Bob diz que três passarinhos vieram pela sua porta para lhe trazer uma mensagem. E em certa parte eles cantam algo como: "Se você tem um problema, preocupar-se faz dele o dobro". Haha! E não é verdade?! O problema em si é, de fato, um problema. Mas quando me preocupo com ele, a preocupação, ao invés de me ajudar com o problema, acaba se tornando ela mesma um outro problema para mim. Antes eu tinha um problema; agora, além do problema, também tenho uma preocupação. Então, deixa a sua vida nas mãos de Deus e aprende aí: "se você tem um problema, preocupar-se faz dele o dobro".

Agora que você leu isso tudo até o final, olha só que bacana sobre o Bob: http://noticias.gospelprime.com.br/bob-marley-aceitou-jesus-e-foi-batizado-sete-meses-antes-de-morrer/ :)

E se você quiser ver o trechinho do filme que falei, é esse aqui: https://www.youtube.com/watch?v=MA1h6J0YzqA

Obs.: Não tenho a intenção de incentivar ninguém a ouvir reggae ou gostar do Bob Marley, mas respeito a quem, diferente de mim, goste.
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Observem as aves do céu: não semeiam nem colhem nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta. Não têm vocês muito mais valor do que elas?
Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida? [...] o Pai celestial sabe que vocês precisam de todas essas coisa. Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas. Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal".

(Jesus Cristo, em Mateus 6:26,27,32-34)

Amigos? Quatro ou Cinco

No Facebook você pode ter até 5 mil amigos, que é o limite permitido para um perfil pessoal. Mas na realidade, só precisamos de 4 ou 5 que sejam íntimos e vistos com frequência, que riam das suas asneiras com você e não contra você, com quem você pode falhar sempre e sempre ser abraçado, que não usem seus erros como um dossiê sobre o seu passado e que seus filhos possam chamar de tio ou tia, e viajar com eles. Cinco mil fotos bem selecionadas, com as melhores maquiagens e óculos importados, não valem o par de havaianas bem surradas de um dos seus quatro ou cinco amigos verdadeiros na porta da sua casa. Dê valor a esses desajuizados que te aceitam na vida deles sem nenhum motivo racional pra isso, a não ser essa coisa velha e gostosa de celebrar que é a amizade.
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Há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e os amigos, que são os nossos chatos prediletos. (Mario Quintana)

Ser Manso, Ser Macho

Tenho pra mim que dentre os atributos que estão no topo da masculinidade, a mansidão tem preeminência. Soa antagônico, mas ser manso é ser macho. Ora, todo mundo se aproxima sem receios do coelhinho e do cordeiro, mas é a dois ou três passos do pitbull que elas perguntam: "ele é manso?". É esse contraste entre força e domínio que revela poder. Em outras palavras, quando as pessoas fazem essa pergunta: "ele é manso?"; elas querem na verdade saber se o ser que detém aquelas mandíbulas com uma tonelada de potência de compressão maxilar possui autodomínio suficiente para permitir-se uma aproximação amistosa para receber e dar carinho sem amputar-lhes um braço ou uma perna, a despeito de tanto poder que possui. Note que qualquer jumento dá coice, mas só um macho tem peito pra domar seu dragão e torná-lo dócil para curvar-se e dizer "bom dia, senhorita!".

Evitando

Estou evitando novos problemas porque os que já adquiri ao longo da vida estão se mostrando suficientes até hoje. É mesmo uma coisa muito bonita essa de aprender a ficar satisfeito com o que você já tem.

Erupção nas Nuvens

Começou aquela garoa fininha. As mulheres recolhiam suas cangas da areia; algumas davam gritinhos e corriam. Os homens retiravam suas crianças da água e fugiam. Todos saíram da praia quando os respingos começaram a cair. Ignorei-os e permaneci ali sentado; não havia açúcar em minha pele e eu nunca fiz uso de cigarro. Agora, estávamos apenas eu e o gigante cinza-azul do mar. O céu antes anil, enfureceu-se, condensou e enegreceu de raiva contra minha petulância de permanecer ali para contemplá-lo.

Eles não presenciaram o que veio a seguir. O medo irracional do inofensivo lhes privou do privilégio que minhas retinas contemplaram. Pois a um dado momento, o sol furou as nuvens em vários pontos projetando-se no mar, e então, cada gota da chuva que caía abrigou em si uma miniatura do astro em chama; cada pingo transmudou-se em lava incandescente precipitando-se do ar. Espetáculo! Erupção nas nuvens; fogo chovia dos céus e me refrescava. Todo o mar era ouro derretido. Laranja, ouro, fogo! Naquele dia eu fui lavado com fogo. Abri a boca para o céu e bebia lava, e engolia fogo. E todos os covardes que almejavam, sem esforço, pela luz do sol, perderam o privilégio de serem banhados de forma líquida por ele.

Aprenda esta lição, caro leitor: os que fojem ao menor respingo da tempestade perdem o privilégio de se banharem com o sol especial que ela esconde. Ao invés de impedi-lo, são as próprias densas nuvens que se transformam no prisma natural através do qual ele irá se revelar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Eternidade ou Vagem Suína

Diz a Bíblia que Deus "pôs a eternidade no coração do homem" (Eclesiastes 3:11).

Isso explica porque você se sentirá frustrado ou decepcionado todas as vezes em que tentar se preencher com qualquer coisa que não possua um selo de eternidade embutido - o vazio que se experimenta no ápice da satisfação dos seus prazeres mais particulares/secretos, aquele peso esmagador na consciência depois do final de semana de "pura curtição", um senso de amargor estranho no coração mesclado com sentimento de culpa. Ora, é frustrante não obter o que se deseja, especialmente se o desejo natural (que não compete a você decidir e não lhe é possível controlar) é por algo infinto enquanto eu me esforço por satisfazê-lo, como disse Jesus, com "as vagens que os porcos comem".

Já com as vias de relacionamento com Deus, baseadas nas coisas mais simples como a leitura da Bíblia, o louvor e os momentos de oração; há um sentido de plenitude inefável que se sobrepõe ao vazio e à frustração, "pois", como afirmou o sábio Salomão, "sabemos que tudo o que Deus faz durará eternamente" (Eclesiastes 3:14).

Você deveria investir mais do seu tempo no que possui esse selo imperecível.

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Tudo o que não é eterno, é eternamente inútil. (C. S. Lewis)

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O que Deus Não Perdoa

Eu estava fuçando alguns livros na biblioteca. Puxando aqui e acolá alguns exemplares. Ela entrou com passos apressados e veio na minha direção pelo corredor, entre as estantes. Não me disse bom dia ou outro cumprimento formal, mas parou diante de mim. Olhei sua expressão e parecia-me em profunda angústia emocional. Fiz que não havia notado para não constrangê-la, e sem me virar, voltando para os livros, disse um bom dia animado enquanto puxava um livro qualquer. Ela respondeu com uma pergunta apressada e sem rodeios:

- Oswaldo, tem algum pecado que seja muito grande? Do tipo que Deus não perdoa?
Então entendi. O negócio ali dentro era culpa. Não perguntei o que estava acontecendo, mas olhando para aquele rostinho de sobrancelhas caídas e semblante sobrecarregado, disse com um tom sério, mas amável:

- Existe.

Deu pra ver os olhinhos dela enchendo de lágrimas quando o som da resposta entrou pelos ouvidos e bagunçou alguma coisa lá dentro. Percebi que era a única resposta que ela temia ouvir. Demorou uns dois ou três segundos olhando na minha direção, me atravessando como se eu não existisse. Naquele momento, meio milhão de pensamentos corriam como bestas selvagens na cabecinha dela. Daí a pouco, segurando as mãozinhas, ouvi a segunda pergunta inevitável de uma voz trêmula e bem fraca:

- E qual é?

Com calma, devolvi o livro sobre revolução francesa à estante, pus a mão no ombro dela, apertei com uma força bem calculada e me virei completamente na sua direção, para então responder:

- O maior pecado na Bíblia, e o único que Deus não perdoa... é aquele do qual você não se arrepende.

Mas lembre-se, caro leitor: o arrependimento inclui o abandono do pecado. Como está escrito: "Vá, e não peques mais".
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